Tecnologia está nos matando

Tecnologia está nos matando

O título é forte, a foto é estranha mas eu quero “colocar o dedo” na sua cara e falar umas verdades, contar o que aconteceu comigo e ao fim (se você ainda estiver lendo) falar o motivo da afirmação do título. Vem comigo?

A cerca de 30 dias (da data que publico esse post) passei por um problema de saúde bem sério onde corri o risco de ficar cego total ou parcial do olho direito ou ter uma paralisia facial. Parece que estou forçando a barra, mas e eu vou te contar como tudo começou e por qual motivo eu afirmo categoricamente que a tecnologia que nos traz benefícios, está nos matando.

Mas a minha intenção aqui não é ser um carrasco e anunciar que estou largando a tecnologia e sim, passar minha experiência e tentar ajudar a você (que está lendo) a usar a tecnologia a seu favor, e não contra você.

Horas e horas de trabalho

“Estou estressado” parece ser uma saudação padrão nos dias de hoje, bem como “Estou ocupado”. E, sejamos sinceros, às vezes usamos o estresse como fonte de orgulho. Dizer que estamos estressados pode nos fazer sentir importantes, porque mesmo que não gostemos do sentimento que o estresse nos proporciona, gostamos do aumento de status que isso traz.

Plano de leitura: Libertando-se do estresse

Quando li a citação acima, me caiu a ficha da forma como eu estava trabalhando. É incrível como o status “estresse” passou a ser valorizado. Como a frase “estou trabalhando 14h por dia” ou “ontem cheguei às 7h aqui na empresa e saí às 22h” e essas frases vinham (ou ainda vem) seguidas de um sorriso discreto no canto do rosto e, por incrível que pareça, isso passou a ser um padrão a ser seguido.

Estar ocupado, andando de um lado para o outro, receber inúmeros emails e ser cobrado por não atender telefone aos finais de semana ou ouvir a frase “não beba muito no sábado pois eu posso precisar de você” passou a me consumir de uma forma que, quando estava com minha família, me divertindo com meu filho, eu acabava sendo consumido por um sentimento extremamente negativo onde parecia que fazendo algo errado.

A citação acima mostra o quão errado estamos usando a tecnologia. Whatsapp, Telegram, Slack, Email… Tudo ao mesmo tempo agora e tudo na palma da sua mão, no seu telefone, uma tecnologia maravilhosa que nos aproxima mas acaba fazendo com que algumas pessoas se sintam ofendidas quando tentam falar com você em uma sexta às 21h e você está em uma mesa de bar se divertindo com seus amigos.

Recebemos mais informações que podemos processar (Facebook, Jornais online, Blogs, Fóruns, novamente Whatsapp e etc) assumimos responsabilidades de mais, somos cobrados e nos cobramos em demasia e tudo por conta da tecnologia, por conta do seu telefone que não para de chegar mensagem em quando você trabalha ou lê um artigo interessante para você, não necessariamente profissional.

Em 29 de Abril deste ano eu publiquei um post aqui com o título: “Foque-se em ser produtivo em vez de forcar-se em estar ocupado” onde eu já falava sobre essa situação e, escrevendo essas palavras agora, percebo que esse post é um complemento ao que escrevi anteriormente. Lembre-se do princípio de Pareto!

Em nossa cultura acelerada, o estresse é visto como a norma. Ele está perdendo as conotações negativas e, ao contrário, está associado ao trabalho árduo, à ambição e ao sucesso. Nós assumimos que pessoas de sucesso são pessoas estressadas, então nos esforçamos mais. E a falta de estresse pode nos deixar preguiçosos ou desmotivados.

Plano de leitura: Libertando-se do estresse

Seguindo a leitura que estava fazendo, me deparei com essa outra citação e me espantei com realidade da afirmação “o estresse está perdendo as conotações negativas“. Essa é a mais pura verdade. Comecei a refletir sobre isso e a pensar sobre alguns colegas de trabalho, não só no lugar onde trabalho atualmente mas em todos os lugares por onde passei. A referência nunca, e volto a repetir, NUNCA é o cara que trabalha 6 horas por dia e entrega o seu trabalho e sim o cara que trabalha cada vez mais, dorme cada vez menos pois uma comparação começa a ser feita entre o que faz o seu trabalho bem feito dentro do tempo saudável de trabalho e o cara que se mata.

Esse tipo de atitude é extremamente tóxica pois faz com que as pessoas ao redor comecem a achar que esse é o normal, esse é o padrão e acabam se cobrando mais e mais, gerando uma séria de problemas. Não atoa estamos vendo uma enorme quantidade de profissionais de TI cometendo suicídio, tendo sérios problemas de saúde cedo de mais e enfrentando problemas como depressão e síndrome do pânico e “estourando” Herpes Zóster em vários lugares do corpo.

Decepção

Essa introdução acima e as explicações são fundamentais para contar o que aconteceu comigo, então, daremos sequência aos fatos.

Após trabalhar mais de um ano a frente de um projeto, vi que muitas coisas erradas estavam acontecendo. Mania de querer tudo certo? Tentar ajudar? Assumir responsabilidades que não são minhas? Acho que foi tudo isso ao mesmo tempo.

Jornadas de 12 a 16 horas por dia. Noites sem dormir, litros e litros de café e energéticos, ligações aos domingos pela manhã com informação que poderia esperar até segunda ou ser resolvida com um simples email. Ligação dia 31 de dezembro para falar de um sonho medonho onde o código era roubado e por ai vai.

Sem entrar em detalhes e expor ninguém, ao fim de 1 anos e 6 meses, após mostrar os pontos fracos, expor as falhas e falar mais de uma vez “eu avisei” foi decidido que eu não seria a pessoa certa para estar nessa startup e não vou entrar em detalhes do que penso a respeito.

Essa fatídica reunião me consumiu de uma forma que acabei remoendo coisas que ouvi, li e vi. Uma única pergunta batia na minha cabeça “o que eu fiz de errado?” e a procura pelo real motivo disso tudo não vinha na minha cabeça. Apesar de eu ter alguns indícios ou pistas, resolvi virar essa página e seguir em frente, uma vez que estou a frente de outro projeto agora.

Fortes dores de cabeça

Ritmo intenso de trabalho, falta de reconhecimento e novamente a fatídica reunião me abalaram de uma forma que eu nunca imaginei que poderia abalar. Eu comecei a sentir fortes dores de cabeça e formigamento no lado direito da cabeça. A dor vinha do fundo do olho e se espalhava pela lateral. O somatório das dores com o formigamento me fizeram correr para descobrir o que aconteceu. No meio do caminho teve falha médica que acabou agravando o quadro e no fim…

Herpes Zóster

Descobri que tinha “estourado” no meu rosto uma Herpes Zóster e havia afetado meu olho (não vou colocar a foto de como meu rosto ficou, mas a coisa ficou feia). Eu tive que fazer um acompanhamento quase que diário com um oftalmologista para o caso de afetar a córnea, dar início a ação imediatamente.

Para quem não sabe, a Herpes Zóster:

Herpes Zóster é uma doença causada pelo Vírus Varicela-Zóster (VVZ), o mesmo que causa também a Catapora. Esse vírus permanece em latência durante toda a vida da pessoa. A reativação ocorre na idade adulta ou em pessoas com comprometimento imunológico, como os portadores de doenças crônicas (hipertensão, diabetes), câncer, Aids, transplantados e outras. A Herpes-Zóster pode levar a complicações e outras formas clínicas graves, inclusive, levar à morte.

Fonte: Ministério da Saúde

Faltou adicionar a essa descrição que em casos de estresse elevado somado a abaixa da imunidade também fazem com que a Zóster apareça.

Por sorte estou bem, não fiquei cego, não tive paralisia facial e, como já se pode perceber, não morri 🙂

Trabalhar mais não é sinônimo de sucesso

Quem trabalha em demasia pode estar assumindo coisas de mais, que não consegue dar conta, ou estar focado nos 80 e não nos 20 da lei de Pareto.

Fora do nosso país, várias empresas já perceberam que a quantidade de horas trabalhadas e a carga em excesso de trabalho em seus colaboradores afeta negativamente seu desempenho, a felicidade e a saúde física e mental. E é agora que vou começar a explicar por qual motivo a tecnologia que, por um lado é tão maravilhada, está nos matando.

Uma reportagem feita pela revista Exame em 2017 falava de uma lei que entrou em vigor por lá. Essa lei exige que os limites sejam respeitados entre a empresa e o colaborador. Emails nos finais de semana, ligações fora do horário de trabalho, mensagens no Whatsapp, ameaças etc. Podem causar sérios prejuízos aos empregadores.

Enquanto o esforço para dar conta da avalanche de mensagens e e-mails ganha dimensões hercúleas e que extrapolam a jornada, níveis de ansiedade, estresse e casos de esgotamento profissional aumentam na mesma proporção.

Revista Exame: Na França desconectar-se do trabalho é um direito. Aqui não é?

No mesmo artigo publicado em 2017, o advogado Anderson Schreiber levanta alguns pontos em relação a essas questões por aqui.

A gente não tem uma lei específica, o que temos é uma alteração da CLT que equipara estar fisicamente no trabalho ao fato de estar disponível por meios eletrônicos. Ou seja, quando o chefe não só manda e-mails e mensagens fora do horário regular de expediente como também obriga que o funcionário responda à sua demanda, a Justiça considera como hora extra.

Revista Exame: Anderson Schreiber matéria Na França desconectar-se do trabalho é um direito. Aqui não é?

Sobre PJ, vamos deixar para outro momento. Quero adicionar mais uma citação desse artigo para embasar uma afirmação minha feita anteriormente, aqui nesse post.

É que muitas vezes não se fala em obrigação, mas os profissionais que são promovidos, elogiados são aqueles disponíveis 24 horas por dia e quem não age assim começa a ter fama de descomprometido. “O direito é também de não ser submetido a essa prática por parte da empresa”, afirma.

Revista Exame: Na França desconectar-se do trabalho é um direito. Aqui não é?

Tecnologia está nos matando

Acredito que, depois de ler tudo que escrevi, as referências que aqui coloquei você já deve ter entendido o ponto que quero chegar.

Redes sociais, sites de notícia, fóruns de tecnologia, Whatsapp (no mesmo telefone de família e trabalho), Telegram, Slack, Jira, Trello, Toggl etc. Já parou para pensar na quantidade de informação que absorvemos e processamos, direta ou indiretamente, todos os dias?

Pode parecer besteira, mas encher a cabeça com informações inúteis, notícias manipuladas e maliciosas, piadas e corrente sem graça nas redes sociais podem fazer com que você processe muitas informações ao mesmo tempo e não processe corretamente o que deve realmente ser processado.

De valor aos pequenos e simples momentos da vida, brinque com seu filho(a), saia com amigos, converse com sua esposa ou marido sobre outras coisas, faça algo que te de prazer e que não seja trabalho, se desconecte por alguns instantes do seu dia!

Ficar desconectado é extremamente importante e o chefe ou a empresa que você trabalha PRECISA entender isso, precisa RESPEITAR isso e você, acima de tudo, PRECISA respeitar os SEUS LIMITES. Eu não respeitei os meus e tomei um susto. E você, o que quer para sua vida?

2 comments

Fernando Gostei do texto. Estamos preparados para trabalhar 8/10 horas por dia, o restante é para descansar, ler, fazer algo que de prazer e também e principalmente dormir. Espero que continue produzinfo como srmpre, mas respeitando os limites de sru corpo. Abraços Paulo Cesar Rocha

Olá PC, obrigado pelo comentário! Eu acredito que o tempo produtivo (principalmente para programadores) é de no máximo 6 horas por dia, digo 6 horas produzindo realmente, não considerando as idas ao banheiro, café, água e esticadas de perna ao longo do dia. Quando passamos disso, não somos realmente produtivos e a possibilidade de cometermos erros fica elevada. Abraços!

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